domingo, 31 de maio de 2015

O Dicionário para Errantes

"Não se pode agradar todo mundo"
"O que se tem já é o bastante"
"Ser humano é nunca estar satisfeito"
"Não seja um troféu numa estante."
Quando os gregos e troianos chegarem
Lembre-se que "nada é como antes"
E "amadurecer é aceitar o que não muda"
E que "a mudança é o que há de mais constante"
Ditados e conselhos, gratuitos, em suma
No bom e velho 'Dicionário para Errantes'.

Não é segredo que "o mundo dá voltas"
E que "mais feliz é o ignorante"
Você pode tentar "tapar o Sol com a peneira"
Mas se encará-lo demais vai acabar com câncer
E se a tal "fruta não cai longe do pé"
O "tal pai, tal filho" está cada vez mais distante
"Só sei que nada sei" é tudo o que importa nos bares
Pois lá vivem hoje os atuais "filosofantes"...
Se prestar atenção ouvirá em cada rua e lápide
Citações do 'Dicionário para Errantes'.

"O mentiroso não acredita em ninguém"
"O que se sente é o mais importante"
Então se sentir que não confio em você
"Não acredite em tudo o que" lê nesse poema massante
O tradicional "quem canta os males espanta"
Já espanta bem mais que isso, não obstante
Pois todos sabem que "a vida não permite ensaio"
E nem todo mundo "merece uma segunda chance"
Eu ouço mil bocas citarem todo dia, sem cansaço
As notas de rodapé do 'Dicionário para Errantes'.

Eu esperava que ainda pudesse compreender
A vida e essas frases tão reconfortantes
Mas a "palavra 'ainda' é de prata, silêncio de ouro"
E é a melhor coisa já dita em qualquer instante...
Enquanto tantos sofrem por inseguranças mordazes
Buscam parecer felizes e confiantes
Têm sempre algo a dizer, "sábios", em todos os lugares
Mas poucos encaram realidade tão discrepante...

Assim, me deixe aqui com minhas dúvidas fugazes
E todos os velhos questionamentos incessantes...
Enquanto leio vulgar, meu próprio exemplar
Do bom e velho 'Dicionário para Errantes'...

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Minha crença

Se eu ganhasse um tostão
Por toda vez que me dissessem o que fazer
Em como pensar e no que devo crer
Daqueles que pensam que "fé" é "saber"
Não precisaria trabalhar mais não...
Fique com sua crença aí, no seu "coração"
E vá arranjar o que fazer...

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Só pra saber

Eu queria apenas uma vez
Ser capaz e digno de escrever
Algo tão forte, bonito e verdadeiro
A ponto do mundo inteiro chegar a ler.
Só pra saber
Que há mesmo alguém, também imperfeito
Por cada rua, praça, esquina e canteiro
Me procurando,
Assim como eu sempre lhe procurei.

sábado, 9 de maio de 2015

Outra noite

E assim se vai outra noite
O menor ponteiro dá outra volta
Até que tudo acabe com a foice
Ainda há muito de banal na história.
Bebi o que pude, a boca ainda seca
A soberba nunca sobrepôs tanto a beleza...
A noite é uma criança que se tornou velha
Mas talvez a vida ainda seja bela.

Há muitos espelhos e flashes lá fora
Mas há pouquíssimos bons ouvidos
Sou grato por todos à minha volta
Mas confesso que ainda estou sozinho.
Ela sabe a quem escrevi, mas sabe fingir
Olhos tão expressivos que pensamentos podia ouvir...
Meu melhor amigo me condena fraco, não nega
Mas talvez a vida ainda seja bela.

Deixo meu boa noite à todos
E que o mundo siga seu melhor rumo
Raiva e rancor não me ajudaram nem um pouco
Só me mostraram o quanto o ego é imaturo...
Eu queria apenas uma vez me considerar certo
Mas só vejo que há menos amigos por perto.
Amar a si mesmo é difícil, mas é o que resta
E talvez a vida ainda possa ser bela...

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Está chegando lá...

Eu tenho escrito coisas para mim
Isso tem lá algum sentido?
O mundo está ocupado com superficialidades
Não se dá ao luxo a nada a ser lido
Não me acho bom demais para o mundo
Mas suportá-lo é cada vez mais difícil
E parece que mesmo depois de tudo
Era mentira aquele final prometido
Aquele... em que não estou sozinho.

Hipocrisia corre em minhas veias
Da mesma forma que em todos os outros
Mas não coloco-a sobre si mesma
Aceito sua existência e meu gosto
Em não ser o modelo tão imposto
E que todos pensam seguir...
Quanto pior o pecado mais alto é dita a prece
E as igrejas estão cheias de gritos senis
E o motivo, sempre se esquece...

Eu não sei onde você vê beleza
Eu sei que há, ver já fui capaz
Mas não há mais motivos pra comemorar
Todo idiota lá fora é cheio de certeza
E eu começo a temer, contra a correnteza
"Como e onde é que vou acabar?"
Mais um caído no canto do bar?
Sentado no meio-fio cheio de avareza
Esperando minha paz virem tomar...

Eles fazem piadas sobre não ter atenção
Por que a tem para dar e vender
Eles não vêem cada maldito anoitecer
Como mais um pesadelo de solidão
Se alguém acompanhasse o que escrevo
Veria que morro pelo mesmo erro cometer
Pois também nunca abriguei outro coração
Pois nunca fui digno de aceitação
Ou nenhum pareceu merecer.

"O que espera da vida?", perguntei
Agora estou na mesma linha de fogo
Mas cada linha escrita em desgosto
Alivia o vazio naquilo que me tornei
O prazer é raro, whisky cheio d'água
Tenho mais que muitos, descontente
A barriga está cheia, vazia está a mente
E não há mais sentido em nada...
É egoísmo por fim à tudo o que se sente?

Not Dark Yet - Bob Dylan



Sombras caindo, fiquei por aqui o dia inteiro.

Muito quente para dormir, o tempo fugindo.
Sinto como se a minha alma tivesse se transformado em aço,
Ainda tenho cicatrizes que o Sol não curou.
Nem mesmo há espaço suficiente para estar em qualquer lugar,
Não está escuro ainda, mas está chegando lá.

Meu senso de humanidade anda indo pelo ralo.
Atrás de cada beleza, tem existido algum tipo de dor.
Ela escreveu-me uma carta e a fez tão gentilmente,
Colocou nas palavras aquilo que sentia.
Não entendi por que deveria me importar,
Não está escuro ainda, mas está chegando lá.

Estive em Londres e na festiva Paris,
Segui o rio e cheguei ao mar,
Estive na profundeza de um mundo repleto de mentiras.
Não procuro nada nos olhos de ninguém,
Às vezes meu fardo parece ser mais do que posso suportar,
Não está escuro ainda, mas está chegando lá.

Nasci aqui e morrerei aqui, contra a minha vontade.
Sei que parece que estou seguindo em frente, mas continuo aqui.
Cada nervo de meu corpo está tão ocioso e entorpecido,
Nem mesmo lembro do que estava fugindo quando vim para cá,
Nem sequer ouvi um murmúrio de uma oração,
Não está escuro ainda, mas está chegando lá.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Tangled Up in Feet

Ela estava sentada no ponto de ônibus vazio
Fechei os olhos contra o vento cínico e frio
Queria fugir também dos olhares pelo caminho
Eram mesmo dela aqueles cabelos de vinho?
Sete e um quarto, ainda posso ouvir os passos
Dos pés da manhã apressados.

Ela me olhava do outro lado da rua
Enquanto eu cruzava a calçada, cabisbaixo
A vergonha só me deixou olhá-la por três vezes
Levantava pouco a cabeça, vigiado
Por quantas ela me permitiria tais prazeres,
Entre os pés da manhã apressados?

Eu a conheço? Poderia conhecê-la?
Me faz lembrar as belas garotas que nunca tive
Terrível é a imaginação que em mim vive
Me fará estar no mesmo lugar e hora, no dia seguinte
Para saber a direção daqueles olhos vidrados
Entre os pés da manhã apressados.

Dizem que ela já tem um amor, em algum lugar
Não me dei o trabalho de procurar fontes
Eu poderia ler aqueles lábios de longe
Mas essa dúvida ainda não quero matar...
Entre as verdades, mentiras, amigos e seus espaços
Entre os pés da manhã apressados.

Dizem que isso não presta, não serve
A razão sabe que a obsessão é um erro
Qual a diferença entre esperança e desespero?
Se Deus existe, sabe que não faço preces...
A utopia faz mais sentido que este mundo errado
Na minha face molda sorrisos
Cada olhar ganho é outra razão para se estar vivo
Mas me fará deixar o próprio amor passar, ignorado
Entre os pés da manhã apressados.