terça-feira, 14 de setembro de 2021

Vai passar

Não faz diferença. 

Vai passar. 

Vai acabar. 

Como um filme chato, ou difícil de entender, vai acabar. 

E então virá outra coisa. 

Ou não virá nada. 

Eu irei acabar.

Pouco importa o que já acabou

E a mim não voltará

Pois eu mesmo não estou 

Aqui pra ficar.

Sagradas memórias a sangrar

Com ternura em minha alma

Não é o mesmo lugar

Se não é o mesmo tempo...

Estamos tão distantes

De quem éramos há anos atrás

Mas lembramos tão vividamente

Que quase podemos tocar

Sentir, saborear

A superfície debaixo da poeira

Do tempo

Que não se pode limpar.

Eu passarei por essa terra

Quase sem rastro deixar

Como quem dorme toda a viagem

Sem agir, sem atuar

Incapaz de aproveitar

A mais deslumbrante paisagem

Como quem abandonou os sentidos

Em algum ponto da estrada.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Toques e palavras

Esse toque é mais convincente
Do que qualquer palavra
Rende conversas melhores
Pois não precisa dizer nada
Não precisa falar a verdade
Pelo menos não a sua
Mas docemente diz 
O que você quer ouvir
Pois vem da mão nua
De quem você quer que seja
Por mais que não veja
E escolha não ver
Uma superfície brilhante e vazia
Esperando ser preenchida
Com o que você quiser preencher
Não precisa de tópicos em comum
Não carece artifício algum
Mas quando acaba
Na ironia de só restar-lhe a fala
Ao abrir a boca
Ao cair a máscara
O fantoche ganha vida
Superfície vira pessoa
Perfeita desconhecida
E a realidade, amarga e fosca
Outra vez lhe abraça
Calada.

Burning Bridges

Com o passar dos anos
Novas pontes tornam-se frágeis
Fracas, pobres, inflamáveis
E é sempre mais fácil queimá-las
Do que construí-las
Mesmo sem querer, mesmo sem pensar
Às vezes só de olhar
Elas se desfazem em cinzas
E, raramente, lágrimas
Proteja as que lhe são mais caras
São tudo o que pode lhe restar.

"What you don't really need now"

O que "poderia ter sido" só existe na sua cabeça
O que só existe na sua cabeça, jamais aconteceu
O que jamais aconteceu, você jamais teve
Por mais próximo que pareceu estar de ter
Se nunca teve, nada perdeu.

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Confusão

Ah, esses desejos
Jamais me fizeram bem
Mal também não me fizeram
Mal a mim, eu mesmo faço
Já esperando o embaraço
Ao julgar e ser julgado
Quando ausente, eu mesmo crio
No falso do outro passo...

Como você pode ver
Escrevo a ver se me desfaço
Desse incômodo a doer
Dessa dor a incomodar
Da resposta que não veio
Do porquê que não foi dado
E perdido em tanto espaço
Do vazio que há no meio
Desse fim não explicado
Me preenche o imaginário 
Que com olhos traiçoeiros
Me dá sempre por culpado.

Queria eu ter a alma leve
Calma plena ao coração
Esquecer quem não me deve
E a quem devo nada não
Mas escrevo afogado
Num mar de suposição
Pois sou feito em descompasso
E de inquieta confusão.

domingo, 13 de setembro de 2020

Feedback

Você me fere
E isso é problema meu
O seu jeito de ser me assusta
Representa tudo o que não aceito
Mesmo que me aceite
Tão imperfeito...
Eu queria poder dizer
Que não é por mal
Mas há mal em mim
Provavelmente mais que em você
Então eu me levanto, abro a porta
E saio silenciosamente
Pois é tudo o que posso fazer
Por hora
E assim, distantes
Podemos continuar a ser.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Grãos de areia

E eu que,

Pensando saber 

Que vim do pó e ao pó voltarei

Entre os menores grãos do universo,

Ainda caio nos jogos ilusórios dos homens

Do poder, da vaidade, do ego, dos golpes

Que não valem a areia

Que escorre de meus dedos...

Ainda não devo, realmente

Saber o que penso.