Moldei significado sobre o insignificante
Ele agradeceu-me com alguma emoção
Deu sentido a aquele instante
Disse ainda que nunca vira coração
Mas que esperava compreensão. Não obstante,
Perguntei-lhe se compreendia-me, então
Se seu desejo era ego ou compaixão
E recebi desconforto relutante.
"Que pensas de mim? Vês aqui falastrão?"
Usara pose enquanto ofendido como escudo mais brilhante
Pois polira-o com cinismo por tempos em vão
Esperando ataques como os recebidos anos antes
Lhe era comum transformar palavras alheias em crimes sem perdão
Palavras sem peso, significado, até de outros errantes
Que nunca conheceram sua essência enquanto são
Suas alegrias no sótão e medos acorrentados no porão
E, ainda assim, recebeu deles cada palavra como o punhal mais cortante.
Disse-lhe então que nada pensava, em conclusão
De não lhe conhecer, não ser simpatizante
De seus sentimentos e emoções em explosão
Não dividir seus sapatos e não preencher seu semblante
Afinal, compreensão é coisa rara na multidão
E corações não são expostos no frio dilacerante
Da cegueira indiferente dos homens desse chão
Que não acolhe as raízes e sementes de nossa paixão
De nossos sonhos mais reluzentes e provocantes.
Senti-lhe estremecer diante daquela verdade de latão
Sem brilho, enferrujada e sem magnetismo vibrante
Senti-lhe reconhecer-se narciso, nunca tendo dado atenção
Aos corações alheios, que sofriam calados, abandonados em velhas vitrines e estantes
Esperando que alguém lhes desse lar e razão
Reconhecimento e aquele calor tão reconfortante...
Abracei-o então, acalmei meu próprio demônio e maldição
Dei-lhe ressignificado, dei-lhe paciência ao invés das pedras que levava sempre à mão
E ele agradeceu-me com o silêncio de dias mais vivos e radiantes...