sábado, 23 de janeiro de 2016

Diário

Ansioso. Essa era a melhor definição para seu estado naquela manhã, mesmo que "obcecado", "aflito" e "levemente desesperado" também fossem itens daquele menu emocional. Se achava perambulando pelo centro da cidade, cidade esta que a cada novo prédio instalado entre suas velhas edificações parecia morrer mais um pouco. E pudera: tudo que havia de bom ali estava no passado, e não no futuro. O presente era apenas um filme enjoativo de baixa resolução que passava infinitamente, mostrando apenas de centímetro em centímetro nosso trajeto ao fundo do poço.

Aguardava alguém durante essa manhã, alguém que tinha mais afazeres do que ele mesmo. Quem era e o que fazia pouco importa, mesmo que seja o motivo de boa parte da narrativa ter acontecido. O que importa é que não tinha boas opções de lugares para ir, então seu palco principal fora qualquer calçada sombreada. Era uma manhã deveras quente, para piorar um pouco mais as coisas.

Além das calçadas, perambulou pelas lojas mais tranquilas e vazias, a procura de qualquer coisa que invocasse ao menos pequeno interesse, pequena surpresa ou lucro ao seu tempo vago. Procura esta que foi em vão, diga-se de passagem. Resolveu ir tomar um café em sua lanchonete/bar/buraco preferido. Estava cheio, mas não o bastante para não haver acentos vagos, então sentou-se no terceiro acento ante a parede. Pediu um café, e se lembrou do amigo. Chamou-o para um encontro em poucas palavras, mas este não estava disponível, como de costume. Não era sua culpa se não tinha tanto tempo livre como o costumeiro "anfitrião" sentado no terceiro banco. Na verdade, podemos dizer que não ter tempo era sua salvação, seu motivo de orgulho para aqueles que acreditam que o trabalho e os afazeres de fato dignificam o homem. Por vezes nosso protagonista refletiu sobre o assunto, e sempre usou-o para amenizar a frustração em ter seu convite negado. E nesta manhã não foi diferente.

Enquanto bebia seu café, então praticamente num canto do estabelecimento, ouviu três senhores se aproximarem para ocupar este canto, que possuía apenas dois lugares vagos à sua direita. À sua esquerda havia mais dois lugares vagos, e após estes havia um terceiro lugar ocupado. Escolheu justamente o terceiro lugar entre os cinco para se manter afastado o bastante do homem à esquerda de forma a evitar possíveis conversas, mas não longe o bastante para perder a vista do movimento da rua. Nunca se sabe quem vai passar. Era seu lugar ideal, que agora era ameaçado pelos três novos presentes no local. Ouviu um dizer "ficarei em pé", mas sabia que algum deles, certamente o mais velho, com a voz mais arrastada e doente, lhe pediria com pequena gota de piedade que ocupasse o próximo banco à esquerda. A ideia de ser requisitado tal favor lhe provocou calafrios, então simplesmente pulou ao próximo banco da forma mais discreta possível. Infelizmente, isso não foi o bastante para evitar que os velhos agradecessem com aquele clássico tom de voz que diz "obrigado, meu filho", e ao mesmo tempo "tenha dó, é o mínimo que pode fazer a um velho". Mal conseguiu olhar em seus olhos, e, desconfiado, apenas acenou com a cabeça. Talvez ele se arrependeria amargamente um dia por esse pensamento tão duro quando fosse ele mesmo um ancião (se isso viesse a ocorrer), mas acreditava e prometia a si mesmo manter a dignidade e o orgulho de sua independência intactos até seu último dia de vida. Afinal, por mais que não fosse de todo refinado e tivesse certa aversão ao esnobe e ao burguês, lhe agradava se imaginar como um homem firme, educado, sério, com algo de "nobre" em seus olhos e postura. Romantizava, de fato, certos traços da Aristocracia e do conservadorismo, uma vez que lhe garantiam a ilusão de formalidade, que por sua vez garantia uma visão "certa" ou "real" das coisas, num mundo que lhe parecia cada vez mais bagunçado e medíocre, uma verdadeira zona. 

Tomou o café, conversou com a garçonete e logo saiu para a rua novamente, já que o lugar estava pouco agradável. Havia muita gente, e o ar do ambiente parecia mais quente que o da rua. Pagou e saiu. Mas não acreditava que se tratava apenas de um desconforto local. Precisava realizar ações e mudanças constantes em seu itinerário, pois uma força terrível dentro de si o obrigava a isso. A mesma força que caracteriza seu estado no inicia esse diário: ansiedade. Uma ideia parecia lhe comer vivo desde que acordara. Havia conseguido afastá-la na noite passada pela bela companhia de grossas coxas que tivera, mas pela manhã não havia qualquer distração sexual para acalmá-lo. E então, a ideia lhe tomou a mente por completo.

Enquanto vagava pela rua, lembrava-se de cada detalhe e momento do encontro causador de sua cólera. Foi surpreendente, se foi. E não fazia sequer um dia que ocorrera, sendo que nem mesmo seu encontro noturno lhe foi tão interessante como esse feliz encontro vespertino baseado em mera conversa. Ela estava linda, se estava. Achava que nunca vira mulher alguma nesta cidade usando óculos de aros tão grandes e grossos. Seus cabelos eram compridos em um castanho escuro pouco uniformes. Suas roupas pareciam panos pretos que se sobrepunham infinitamente sobre seu corpo, combinando com os óculos também negros, e que deixavam apenas mãos e rosto à mostra. Pode-se dizer que cada característica isolada de sua aparência era um tanto peculiar, e talvez pouco aprovada para a maioria dos homens dessa região. Mas isso certamente não se atribuía a aquele ser ansioso e surpreso. Ele via naquela mulher um padrão perfeito, único, um estilo a não se encontrar em mulheres de pouca personalidade. De início, aquela aparência única era tudo o que, de fato, procurava numa mulher. Mas essa descrição caprichosa não foi o principal motivo de sua surpresa e comoção. A cereja do bolo era o fato de que a conhecia.

Aquela última tarde fora realmente interessante. Saíra pela cidade exercendo tarefas de seu ofício (o qual também não importa), até bater na porta do último estabelecimento ao qual precisava visitar, lá por volta das quatro horas. Ao entrar, logo se deparou com aquela que lhe surpreendeu tanto, aquela que acreditava conhecer. Mas ela não o reconheceu, como sempre o fizera nos últimos treze anos. Perguntou a ele o que queria, e ele lhe respondeu, tentando parecer casual no meio de sua confusão mental. Ela o informou aonde ir e ele foi, sem bem saber mais o motivo de estar ali. Conversou com os responsáveis e estes lhe informaram que o problema a ser resolvido estava na recepção, obrigando-o felizmente a se aproximar novamente de sua antiga conhecida, que agora parecia um pessoa completamente diferente da de sua infância. Sentou-se ao seu lado, analisou-a de canto de olho e teve a impressão de que ela notara-o observando-a. Sua paranoia sempre lhe dava os piores status de cada uma de suas situações. Analisou-a o máximo que pode pois tinha medo de ter atribuído sua memória à pessoa errada, como muitas vezes aconteceram, já que no meio das semelhanças sempre haviam tantas diferenças. Enfim, tomou coragem e lhe pediu seu nome. Ela hesitou, mas respondeu, e então não haviam mais dúvidas. Era ela. Ela pareceu desconfiada e pouco feliz com a pergunta, e isso causou a ele dúvidas e arrepios, lembrando de todas as vezes que se cruzaram sem ela lhe reconhecer. "Haveria ela não me reconhecido, ou apenas me evitava?", pensava ele. Tentara entrar em contato pelos meios digitais mais comuns disponíveis há alguns anos atrás, mas nunca obteve resposta. Ela poderia ter esquecido seu rosto com suas tantas mudanças, mas não poderia esquecer seu nome. Haviam estudado juntos por pelo menos sete anos, e o nome desse sujeito afoito que buscava tanto manter sua postura "nobre" era um tanto único em meio a tantos outros. 

Mesmo com tantos questionamentos, precisava dar continuidade à conversa, e então disse a ela que ambos já haviam estudado juntos, mas que achava que ela não devia se lembrar. Ela pareceu surpresa e pouco à vontade em forçar sua memória. Por fim, ele disse seu nome, e ela enfim se lembrou. Ainda sem lhe olhar nos olhos, exibiu uma expressão de grande surpresa por trás daqueles grandes aros e um sorriso infantil, além de soltar uma expressão em voz alta, dando a ele mais tantos fatores de seu comportamento a serem avaliados. Enfim, parecia animada, e isso já era alguma coisa. Sabia claramente que entusiamo alheio nem sempre (ou quase nunca) era de fato verdadeiro se o dono deste não saía lucrando significativamente de alguma forma, mas era muito melhor que a indiferença, sim senhor!. Mesmo que fingido, ainda havia esforço, significância.

Após algumas gargalhadas, risos entusiasmados e comentários pouco significantes de ambos, os humores se arrefeceram, dando início a conversa. Ele ficou surpreso com a avidez com que sua momentânea companhia lhe fazia perguntas sobre sua vida, sobre o que fazia. Parecia haver certa ansiedade em seus questionamentos também, o que fez seu ouvinte reafirmar em sua mente tal problema como o mal deste século. Mas havia algo mais. O interesse dela não parecia se basear em nosso protagonista em si, mas sim sobre a posição em que este ocupava nessa infinita corrida social da qual todos fazemos parte. Perguntou sobre graduações, pós-graduações, mestrados, doutorados... Deus! - citado aqui apenas como ênfase de expressão - fazia-o sentir como em uma entrevista admissional! Parecia realmente preocupada e nervosa com isso, não talvez por querer competir com ele, mas sim por imaginar e até ter certeza que este estava em mais alta posição, assim como muitos de seus antigos colegas estavam. Quando o entrevistado confessou ser apenas graduado e ter um emprego estável de nível abaixo de sua graduação, o nervosismo de sua interlocutora pareceu diminuir, sem decepções ou surpresas. Além disso, quando contou estar cursando a graduação e estar empregada ali por causa do estágio requisitado pela mesma, seu rosto adquiriu uma expressão séria como de quem confessa uma gafe ou pequeno crime, mas que já está pagando pelo mesmo. Parecia haver certa vergonha e cuidado em sua fala ao citar os anos sem estudar após concluir o ensino básico, além do fato de ainda morar com a mãe em sua idade, idade esta na qual muitos de seus antigos colegas já se encontram com suas próprias famílias e exercendo avidamente sua independência. Ele, por sua vez, ouviu tudo de forma solene, tentando transmitir algum conforto empático a fim de demonstrar que mais explicações não eram necessárias, e que nada havia de errado com a vida de sua nova fonte de interesse, uma vez que pareciam ter vidas semelhantes. Semelhantes, porém diferentes, pois sabia ele que sua antiga amiga havia sofrido dores que ele jamais havia sofrido. 

Ainda quando muito pequena, nossa segunda personagem havia perdido o pai em um acidente de ofício. Mais tarde, já colega de classe de nosso falso diplomata, havia perdido o irmão mais novo, que morrera afogado. E aquele lembrava claramente deste dia, mesmo que não achasse adequado dizer isso a ela. Haveria um passeio na escola, que fora cancela pela perda dessa então menina. Lembrava-se de que vários de seus pequenos colegas se encheram de raiva por não haver mais aquele dia tão esperado, mas ele não sabia o que pensar. Uma morte havia ocorrido, e toda a turma foi levada à igreja para prestar condolências à colega pouco querida, que a maioria dos meninos considerava "briguenta". E não era pra menos que fosse. Precisava ser, tendo vivido o que viveu. Seu irmão fora a primeira criança em um caixão que o dono dessas memórias viu. Nunca havia visto um caixão tão pequeno, e ainda branco, cheio de brinquedos por dentro e por fora. Havia um vidro em frente ao rosto do pequeno cadáver, um garoto como cada um daqueles ali presentes, ainda mais novo. E nesse dia nosso ainda pequeno protagonista percebeu que crianças também morriam. "Nenhum pai deveria ter que enterrar seu próprio filho". Imaginemos uma mãe viúva, então.

Após citarem a situação profissional de cada um (ou pouco profissional), passaram para o plano familiar. Coincidentemente, ambos precisavam morar com suas mães, ambos um pouco dependentes e ao mesmo tempo um pouco responsáveis por elas. Ele a havia visto entrar numa casa próxima à sua antiga escola, e ela confirmou morar no local. Ele por sua vez contou que estava prestes a voltar a morar na vizinhança e sobre a sua situação com seus pais, e os questionamentos dela recomeçaram. Desta vez fizera tantas perguntas tão rapidamente que se sentiu obrigada a se desculpar. Ele se limitou a rir, e ela corou um pouco, explicando que não se tratava de intromissão ou fofoca, mas que tinha um interesse genuíno pela vida e condição individual de cada um. Ele demonstrou entender isso, e explicou sua situação familiar um tanto complicada. Ela pareceu bastante surpresa e sem entender alguns fatos, mas se limitou a fazer poucos comentários. Ele então perguntou se era casada, e ela negou rapidamente. Isso o entusiasmou, obviamente, rindo para ofuscar o interesse, mas ainda o incomodava o anel preto no dedo anelar da mão direita daquela moça tão peculiar. Nunca vira aliança preta, muito menos parecendo ser confeccionada de madeira ou plástico. Usou aquilo como freio para sua imaginação acelerada, a fim de evitar expectativas. Porém, quando disse ela ter apenas sua mãe e irmãos, sem citar qualquer namorado(a), não pôde conter sua esperança de que provocava algum interesse nela. Era tudo tão tentador, tão sedutor, tão diferente da rotina constante e sem graça. Mas, em contrapartida, os assuntos pareciam estar acabando. Era preciso criatividade para continuar uma boa conversa, mas a tarefa que o levou ali e as pessoas que entravam e saíam do local pouco ajudavam. 

Então, feliz ou infelizmente, a chefe dessa então estagiária questionou sobre o problema, o motivo de sua visita, e nosso então encantado protagonista respondeu como pode. Nisso, sua possível nova companheira de conversas (que pouco parecia se importar com o problema, mas sim em conversar com o responsável em resolve-lo), parecia ter muita afinidade com sua supervisora, contando que aquele que fazia a visita era seu antigo amigo e colega de escola. Esse ânimo em contar isso, em interromper a expressão séria de sua chefe para falar sobre algo pouco pertinente ao trabalho de qualquer um naquele local o animou novamente, o fez sentir importante e interessante, e lhe deu o inflar de ego que tanto gostava. Lhe entristecia apenas o turno da tarde estar acabando, e ter de voltar ao seu local de trabalho. Pior ainda: teve de ir sem poder se despedir daquela que lhe proporcionou tal momento, uma vez que esta havia saído antes, com pressa, sabe-se lá para onde. Sem número de telefone, sem maior contato. Podendo apenas apelar novamente para algum meio digital ou fazer outra visita ao local, quando fosse necessário. Pois apesar de saber onde morava, não teria coragem de ir à sua casa sem aviso prévio.

Esse era o momento que tanto o atormentava. Questionava sem cessar aquele interesse, aquele fato ocorrido, aquele encontro casual. Desejava saber o que era verdade, o que havia de genuíno naquilo tudo. Não era supersticioso, mas a vida costumava lhe dar certos sinais de inteligência e ironia, pois havia por tantas vezes cruzado com aquela mulher pelas ruas dessa cidade moribunda, havia sempre se lembrado dela, havia tantas vezes desejado ter falado com ela, havia tantas vezes se frustrado por não conseguir, e então, um dia, quando já não ansiava por ela, da forma mais inesperada possível, a vida lhe dava uma chance de satisfazer seu desejo, sua curiosidade, sua pequena obsessão. Ela lembrava dele, e contara à sua chefe que era ele um dos mais inteligentes da turma. Talvez por isso tinha certeza que ele estaria em melhor posição, quando na verdade sua inteligência fora sempre um esforço contínuo de seus pais para que não se tornasse um qualquer. Mas se era ele de alguma forma interessante, se aquele momento fora de alguma forma especial, por que não se despedira? Por que simplesmente sumiu? O que era, de fato, tudo aquilo? Nada? Apenas um recordar insignificante? E por que ela provocava tanto interesse nele? Ela tinha estilo e boa aparência, mas que sabia ele sobre sua mente e comportamento? Se um mero apreciador das artes não pode finalizar um quadro inacabado de um grande artista a seu bel prazer, com que direito poderia ele preencher as lacunas vazias do pouco que sabia sobre ela? Haviam se passado tantos anos... 

O que atribuía de tão bom naquela mulher, uma vez que nem pensava em defeitos ou falhas que todos possuímos, era fruto de seu desejo por solução, por paz. Lhe foi dito, em algum momento de sua vida por alguém ou alguma coisa, que era isso o que havia de mais importante sobre o futuro. Encontrar mulher única que lhe acompanharia pelo resto da vida, com quem teria família e futuro. Pois só via duas formas de futuro: esse futuro belo e de alguma forma correto, ou o futuro errante, do homem solitário, que vive de emprego qualquer, encontros noturnos sem muita importância, que enterra os pais algum dia e espera ser enterrado por algum bom amigo em outro. De qualquer forma, romantizava a ambos, mesmo sabendo que a vida pouco tinha de romântica. Mas não podia esquecer que aquela mulher parecia sofrer da mesma coisa. Havia em seus olhos uma tristeza e preocupação real com a idade e seu estado civil. Parecia se importar com o fato de não ter seguido o caminho "certo" da maioria. Poderiam, juntos, se salvar? Seriam eles que dariam um ao outro o que tanto precisavam? Era realmente ISSO o que tanto precisavam? Ao menos ela parecia engajada em algum futuro maior, falando em estudos depois da graduação. Mas o que sabia ele? O que queria ele? Quem era ele? Nunca soube e acreditava que nunca chegaria a saber. Sabia apenas que devia segui-la, conhece-la, tentar, antes que ela perdesse a importância pelo futuro que compartilhavam até então. E se nada conseguisse, tentaria com outra, e com todas as chances curiosas que a vida lhe daria. Intercalaria de forma vitalícia entre os seus dois futuros, sempre buscando um, e usando o outro como estepe para a solidão e o vazio de sua existência.

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